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Psicovid19

Saúde mental em tempos de pandemia

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Saúde mental em tempos de pandemia

Obsessão ou Compulsão: eis a Questão?

27.03.20

No atual contexto pandémico, multiplicam-se os conselhos e recomendações relativamente a medidas de higiene, etiqueta respiratória e outras estratégias para reduzir a possibilidade de contágio da Covid 19. Vimo-nos obrigados a alterar muitas das nossas rotinas e, embora uns tenham aderido mais do que outros às medidas de proteção, não é infrequente ouvirmos relatos de pessoas que se queixam de que “estamos todos a ficar obsessivo/compulsivos, com a mania das limpezas”.

Pois bem, antes de mais, importa clarificar o que são obsessões (pensamentos e/ou imagens mentais indesejadas, repetitivas e intrusivas) e compulsões (comportamentos que se impõem à vontade do indivíduo, muitas vezes realizados de forma ritualizada). Depois, torna-se imperativo diferenciar uma Perturbação Obsessivo/Compulsiva (patologia psiquiátrica que se carateriza por pensamentos intrusivos e comportamentos compulsivos, muitas vezes ritualizados, gerando grande ansiedade e perturbação, nomeadamente consumindo muito tempo (>1h por dia) e interferindo com a vida normal do doente, suas rotinas, ocupações e vida social) de traços de personalidade obsessivos (padrão estável de comportamento, desde o início da vida adulta, caraterizado por perfecionismo, rigidez e inflexibilidade, não causando no entanto sofrimento ou disfuncionalidade significativos).

Por último, será também importante clarificar que a definição de comportamento normal depende sempre do contexto. Assim, no panorama atual, alguém que passe mais de 1h por dia a executar procedimentos de limpeza , aos quais até se possa associar algum grau de mal estar - pois ninguém gosta de estar condicionado a medidas de higiene e proteção tão rigorosas, como as que se exigem numa pandemia - não se classificaria imediatamente como tendo sintomas obsessivos nem compulsivos, mas, mais provavelmente, como estando a adotar um comportamento adaptativo e a ter uma reação emocional expectável, numa situação de catástrofe.

Portanto, se é verdade que os doentes com Perturbação Obsessivo/Compulsiva podem experienciar agravamento dos seus sintomas durante uma epidemia - principalmente nos casos que cursem previamente com preocupações de limpeza - e até não seja descabido considerar que alguém com traços de personalidade obsessivos possa, nesta fase, adotar medidas mais “rigorosas” do que seria de esperar, não há nenhuma razão para começarmos a catalogar as pessoas que adotam medidas de higiene e precaução mais “intensas” como sendo portadoras de alguma patologia mental. Na conjuntura atual, o melhor que nos pode acontecer é pecar apenas pelo exagero da proteção. A fronteira com a doença será estabelecida, como aliás na generalidade das patologias mentais, pelo sofrimento e disfuncionalidade que os comportamentos e/ou pensamentos possam gerar ao individuo.

Em última análise, não estamos todos a ficar obsessivo/compulsivos, estamos todos, isso sim, muito ansiosos e apreensivos, como seria de esperar nesta situação. Mas é importante ressalvar que não devemos usar os rótulos de patologias mentais levianamente, o que se configura como completamente contraproducente, pois contribui para uma visão estigmatizadora da doença e das pessoas com doença mental e para uma banalização do sofrimento de quem de facto tem um diagnóstico psiquiátrico.

 

Lídia Sousa