O medo de contaminação
Numa situação inédita como a que vivemos actualmente, em que o stress é imenso e omnipresente, os danos colaterais na nossa saúde mental são expectáveis e inevitáveis. Apesar de sabido que aqueles com história prévia de patologia psiquiátrica se encontram em risco acrescido, todas as pessoas - independentemente do status, profissão, género, religião ou etnia - devem ter, agora, especial cuidado com a sua saúde mental.
Neste período em que nos vemos confinados aos nossos lares, uma parte significativa da nossa atenção está focada nas estratégias necessárias para evitar o contágio por SARS-CoV-2. Neste contexto, é possível que rotinas como as relacionadas com a higiene, passem a ser realizadas de uma forma mais pensada, atentiva e cuidadosa.
De facto, viver um quotidiano pautado pela constante preocupação com determinados comportamentos – como a frequente e exaustiva lavagem das mãos, a desinfecção dos espaços, a quase ausência propositada de contacto físico e o evitamento activo do manuseamento de objectos em locais como supermercados, bombas de gasolina ou farmácias – faz-nos pensar naqueles que, no contexto da sua doença psiquiátrica, vivem o seu normal dia-a-dia em torno destas mesmas preocupações e comportamentos.
Exemplo clássico é a perturbação obsessivo-compulsiva (POC), que se caracteriza por obsessões - pensamentos, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes, que são vividos com desconforto - e compulsões – comportamentos repetitivos que tendem a aliviar ou suprimir estes pensamentos. Entre as compulsões mais frequentes encontram-se as de limpeza, por medo de contaminação (por microrganismos causadores de doença, por exemplo).
Deste modo, é normal que quem vivencia estas experiências tenha maior dificuldade em lidar com a necessidade quase constante da lavagem das mãos, com o medo de contaminação e com o receio de prejudicar o outro. A par com a estas crescentes preocupações, poderão surgir (ou crescer) sentimentos de culpa com o incumprimento dos rituais de limpeza, associados à crença de que tal resultará, inevitavelmente, na contaminação do próprio ou dos familiares.
Estas preocupações podem tomar proporções de tal forma angustiantes e incapacitantes ao ponto de interferir com a funcionalidade da pessoa em questão, ou até mesmo do seio familiar.
Assim, a MIND elaborou algumas estratégias que poderão ajudar na gestão da ansiedade associada ao processo de lavagem das mãos:
- Não estar constantemente a ler e a pesquisar sobre as recomendações de higienização, se isso for causador de stress;
- Estabelecer limites como, por exemplo, não lavar as mãos durante um período superior ao recomendado (20 segundos);
- Falar com as pessoas próximas sobre estas preocupações e pedir-lhes, por exemplo, que evitem recordar constantemente a importância da lavagem das mãos;
- Fazer exercícios de respiração (explicados no vídeo que se segue) em momentos de maior ansiedade;
- Planear algo para imediatamente depois de lavar as mãos, de forma a criar uma distração e a mudar o foco.
Deixo aqui 8 dicas de relaxamento que poderão ser úteis na gestão da ansiedade:
Se sentir que não consegue gerir o mal-estar associado a estes pensamentos, se estas preocupações estiverem a dominar o seu dia e a impedir o seu normal funcionamento (adaptado, claro, à situação de isolamento), ou se sentir que perdeu o controlo dos rituais de limpeza, deverá pedir apoio junto do seu médico de família, psiquiatra ou psicólogo assistente - sempre por via telefónica.
Mafalda Corvacho