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Psicovid19

Saúde mental em tempos de pandemia

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Saúde mental em tempos de pandemia

O luto em tempos de pandemia

14.04.20

A morte não dá tréguas, especialmente nos tempos de crise como a que estamos a viver. No processo da morte por estes tempos, aquando da hospitalização, não há direito a visitas ficando as despedidas impossibilitadas. São mortes mais solitárias. E a regra é igual para todos.

Os rituais fúnebres também sofreram alterações nas suas rotinas. Um funeral oferece um lugar de reunião para a expressão culturalmente aceite de emoções relacionadas com a perda. Marca uma transição, enfatizando a irreversibilidade da morte. Simultaneamente, fornece um ponto de partida para recuperação e renovação. Além disto, os rituais pós-morte podem tornar-se veículos úteis nos processos de transformação, transição e continuidade - processos que formam a base do ajuste e recuperação após o luto. Faz sentido supor que uma despedida de um ente querido que seja sentida como satisfatória facilite a aceitação da perda.

Segundo um estudo publicado em 2019 sobre a facilitação do luto através dos rituais fúnebres, aparentemente, as pessoas continuam a recordar o funeral de um ente querido com uma perceção positiva, mesmo passados muitos anos. A grande maioria dos participantes relatou também que a organização do período em torno do funeral foi importante para processar sua perda. Outro estudo  de 2000 afirmou que a avaliação de um funeral como reconfortante estava relacionado a menores dificuldades no ajuste ao luto.

Desde o inicio da pandemia, após a morte, o corpo tem uma preparação especial  e os caixões são fechados e selados para evitar o contágio pós-morte. Durante o funeral os familiares e amigos não tem possibilidade de ver o corpo, deverão conservar uma distância de segurança de todos os participantes de cerca de 2-3 metros, existem restrições relativamente ao número de pessoas presentes na cerimónia, reservando-a para as pessoas mais próximas do falecido. Pessoas mais vulneráveis, como as consideradas parte dos grupos de risco e outras que tenham sintomas ou convivam com quem tem sintomas de COVID-19 são fortemente encorajadas a não participar. Além disto, as restrições relacionadas com a deslocação de pessoas podem provocar a sensação de impotência entre os que não podem estar com o ente querido que faleceu e com a restante família para a confortar. Estar em proximidade física com amigos ou família ajuda na produção de hormonas de bem-estar, como ocitocina, dopamina e serotonina. Esta não despedida do ente querido pode provocar sentimentos de culpa e impotência nos familiares. Sendo o processo de luto violento por si só e potencialmente traumático, o suporte que o contacto social permite não vai existir, o que talvez torne mais difícil ultrapassar a perda.

As comunidades religiosas, muitas vezes associadas a este tipo de rituais, tiveram também de alterar as suas rotinas. Há a exigência de criatividade e em alguns locais são celebradas cerimónias online , embora sem o calor que o conforto de um abraço ou um beijo podem ter.

Se estiver a passar por uma situação de luto, deixo algumas sugestões que podem ajudar no alívio do sofrimento e na integração da perda:

  • Mantenha-se em contacto com pessoas próximas;
  • Não reprima as suas emoções. É natural sentir tristeza, raiva, culpa, frustração. É natural ter vontade de chorar.
  • Lembre-se que todos temos tempos e necessidades diferentes para lidar com o luto.
  • Encontre uma forma de homenagear a memória da pessoa que morreu
  • Tente a pouco e pouco envolver-se nas suas atividades e cuide de si.

Caso sinta que o sofrimento está a ser demasiado para si e que poderá estar a ter sintomas que dificultam o seu funcionamento diário procure ajuda de um profissional especializado em psicologia ou psiquiatria.

Se conhece alguém que está a passar por uma situação de luto, aproxime-se da pessoa através das novas tecnologias, mostre-se presente e preste o apoio possível.

Vivem-se sentimentos de uma certa cumplicidade, comunhão e solidariedade pelo facto de todos estarmos na mesma situação. Somos uma comunidade, o que de certa forma nos faz sentir menos sozinhos.

 

Sónia Farinha Silva

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