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Psicovid19

Saúde mental em tempos de pandemia

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Saúde mental em tempos de pandemia

No 1º de maio, defender a saúde de todos os trabalhadores!

01.05.20

No dia 1 de maio de 1886, 500 mil trabalhadores manifestaram-se pacificamente em Chicago pela jornada de oito horas de trabalho e a brutal repressão patronal e policial feriu e matou dezenas deles. Em 1889, o Congresso Operário Internacional decretou o 1º de maio como o Dia Internacional dos Trabalhadores, um dia de luto e de luta. E, em 1890, os trabalhadores americanos conquistaram as oito horas de trabalho diário.

Em contexto de pandemia, com milhares de portugueses com rendimentos cortados e o desemprego e a angústia em relação ao futuro a disparar, o 1º de maio mantém todo o seu significado e atualidade.

Nunca é demais sublinhar que o novo coronavírus produz resultados assimétricos na sociedade e que não é um vírus democrático, nem igualitário. Os dados globais já disponíveis desagregados por etnia, estatuto socioeconómico, doença crónica e género mostram que não nos contagia e mata a todos de igual forma e que vai agravar as desigualdades em saúde.

Vários fatores influenciam a nossa saúde, com particular ênfase para os determinantes sociais de saúde, as condições nas quais os indivíduos nascem, vivem, trabalham e envelhecem. Quanto menor a posição socioecónomica, progressivamente pior é a saúde, e as desigualdades em saúde, diferenças no estado de saúde injustas e evitáveis, ocorrem em diferentes eixos de estratificação social, económica e política.

As consequências desta pandemia na saúde de cada um de nós vão ser moldadas pelas diferentes vulnerabilidades pré-existentes do estado de saúde, pelas diferentes capacidades de cumprir medidas de prevenção e pelas diferentes consequências económicas. Quanto mais baixo o estatuto socioeconómico, pior o estado de saúde à partida, pela maior probabilidade de ter doença crónica e pelo menor acesso a cuidados de saúde, e maior será a vulnerabilidade à gravidade da infeção pelo vírus SARS-CoV-2. Quanto mais baixo o estatuto socioeconómico, maior a exposição ao vírus, pois a possibilidade de teletrabalho e de confinamento é bastante heterogénea nas sociedades e porque a utilização de transportes públicos, o tamanho das casas em que vivemos e a disponibilidade para adquirir equipamentos de proteção variam quando estratificados por rendimento. Quanto mais baixo o estatuto socioeconómico, mais impacto terão o desemprego, a precariedade, a insegurança e as dívidas, cujos efeitos negativos sobre a saúde ficaram tão evidentes noutras crises económicas.

Lutemos, portanto, pela concretização da Agenda 2030 e dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, “uma lista das coisas a fazer em nome dos povos e do planeta”. É um imperativo moral criar um novo modelo global para acabar com a pobreza e reduzir as desigualdades, promover saúde de qualidade, trabalho digno e o bem-estar de todos.

Viva o 1º de maio!

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COVID19: É urgente cuidar da saúde mental nas pessoas mais velhas

01.05.20

Em plena pandemia COVID assistimos a pandemias paralelas de ansiedade, stress económico e medo. Estima-se que estas pandemias terão um impacto negativo significativo em toda a população geral, contudo, há um grupo em particular que merece a nossa atenção: as pessoas mais velhas.

São vários os fatores que afetam a saúde mental e o bem-estar deste grupo, nomeadamente:

Isolamento.  As medidas de distanciamento físico são vitais e necessárias perante a situação que vivemos, mas sabemos também que o isolamento é um fator de risco de doença física e mental. Esta medida tem um impacto maior nesta população vulnerável, já de si com menos contactos sociais, excluída das tecnologias e por isso menos apoiada. A inexistência atual de contactos que previamente eram um suporte social fundamental (como os vizinhos, as comunidades religiosas e alguns serviços sociais considerados agora como “não essenciais”) irão deixar estas pessoas mais isoladas.

 

Saúde física. São normalmente pessoas com várias condições médicas, que geralmente podem ser bem acompanhadas com o médico. Durante esta crise, ser mais velho e ter doenças crónicas são critérios de "alto risco" para doença COVID. Ter conhecimento deste facto é assustador e pode agravar o stresse que muitas pessoas mais velhas sentem.

 

Saúde mental. As perturbações de ansiedade e depressão são subdiagnosticadas na terceira idade. A depressão e a ansiedade não fazem parte do envelhecimento normal e podem ser tratadas com acompanhamento médico. O stresse da COVID-19, a incerteza que ela cria e o potencial das pessoas mais velhas serem mais suscetíveis ao vírus, podem exacerbar qualquer risco subjacente de depressão ou ansiedade.

 

A perda e o luto. São experiências frequentes para as pessoas mais velhas e geralmente incluem a morte de entes querido, e outros tipos de perdas, como autonomia ou económica. Quando a estas perdas se juntam outros fatores de stresse, podem suceder problemas de saúde mental. A crise da COVID-19 é uma ameaça que pode trazer ainda mais perdas e lutos súbitos, despedidas impossibilitadas e a perceção da morte iminente

Agora, mais do que nunca é urgente apoiar as pessoas mais velhas. É necessário adequar as medidas de contenção, de forma a não lhes tirar completamente as relações sociais, sendo obrigatório depois da crise criar reformas no sentido de melhorar a inclusão social destas pessoas. É fundamental criar estratégias comunitárias para acompanhar esta população. Promover relações é promover a saúde.

 

Apoiar e proteger as pessoas mais velhas é responsabilidade de todos. Algumas coisas que pode fazer:

 

  • Contacte regularmente os seus amigos, vizinhos e familiares mais velhos; pergunte como eles se sentem e de que forma lidam com o stresse.
  • Ofereça-lhes uma refeição, faça-lhes recados, passeie-lhes o cão;
  • Incentive-os a manter atividades que gostem, como caminhadas, alongamentos, ouvir música, ler, ver televisão, fazer jogos…
  • Ajude-os a procurar assistência médica se tiverem sintomas de doença física ou mental.
  • Expresse gratidão e apreço por qualquer apoio que obtenha deles. Deixe-os saber que os admira e lhes reconhece sabedoria.

 

Lembre-se, não há saúde sem saúde mental.

 

Mariana Duarte-Mangas, médica interna de Psiquiatria