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Psicovid19

Saúde mental em tempos de pandemia

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Saúde mental em tempos de pandemia

O luto global

01.04.20

O mundo mudou. De há umas semanas para cá operou-se, na vida de todos, uma mudança de dimensões ainda difíceis de compreender. Acompanhando esta mudança surgem, mais ou menos evidentemente, uma miríade de emoções e sentimentos que nos colocam desafios individuais permanentes, causando sofrimento, ansiedade e tristeza, impondo-se a sua análise e compreensão à luz do contexto atual

Numa entrevista ao Harvard Business Review, o Dr. David Kessler (um dos principais especialistas na temática do luto, a par com Elizabeth Kubler-Ross com quem colaborou) procura dar sentido a este conjunto de emoções e sentimentos, que identifica inquestionavelmente como “luto”.

Em primeiro lugar, o Dr. Kessler refere que neste momento todos sentimos diferentes “lutos”, que relaciona com a sensação de que o mundo está em mudança “apesar de sabermos que é temporário, não parece, e sabemos que as coisas serão diferentes” e acrescenta que este é um luto colectivo, ao qual se acrescenta uma vivência de “Luto Antecipatório”, que sentimos “acerca do que o futuro nos reserva quando estamos inseguros (...) Sentimo-lo quando alguem recebe um diagnóstico grave ou quando normalmente recordamos que um dia perderemos um ente querido (...) Sentimo-lo agora em relação ao futuro, a nossa mente primitiva sabe que algo de mau se passa, mas é invisível, o que quebra a nossa sensação de segurança, e esta perda nunca ocorreu desta forma a nível coletivo. “

O Dr. Kessler vê o luto antecipatório como uma forma de ansiedade, um projetar da mente no futuro, imaginando o pior e desta observação recomenda algumas formas de aplacar o sofrimento. Primeiro, diz-nos, “É importante compreender os estadios do luto”, lembrando-nos que estes não são lineares nem ocorrem necessariamente na ordem que nos apresenta, e exorta-nos à identificação destes estados durante o processo interno que todos vivemos:

Negação – “Este vírus não nos vai afetar”

Raiva – “Estou a ser obrigado a ficar em casa e a abdicar das minhas atividades”

Negociação –“ Ok, distanciamento social durante duas semanas vai fazer com que tudo fique bem certo?”

Depressão: “Não sei quando isto acabará”

Aceitação: “Isto está a acontecer, tenho que perceber como continuar.”

De acordo com o Dr. Kessler “é na aceitação que reside o poder, a capacidade de tomar o controlo da situação. Eu consigo lavar as minhas mãos. Eu consigo manter uma distância segura. Eu consigo aprender a trabalhar remotamente”.

Recomenda ainda, como forma de combater a projeção da mente no futuro (e no pior que este representa) “ Para nos acalmarmos, devemos voltar para o presente (...) nomear cinco objetos do local onde nos encontramos; Respirar; Notar que nada do antecipado aconteceu no momento presente”. Devemos ainda focar-nos no que está sob o nosso controlo e libertar-nos do que não conseguimos controlar “o que o vizinho faz está sob o controlo dele, eu consigo manter a distância social e lavar as mãos. Concentrem-se nisso”.

Finalmente, o Dr. Kessler releva a imprtância da compaixão “Cada pessoa terá diferentes níveis de medo, que se manifestam de formas distintas (...) Seja paciente” e está convencido de que seremos capazes de encontrar o Significado em tudo isto (O “Significado” é, para o autor, o sexto estadio do Luto, que aliás discutiu extensamente com Elisabeth Kubler-Ross) “Mesmo agora as pessoas percebem que se podem conectar através da tecnologia, que não estamos tão afastados assim, que há em tudo isto algo a aprender.”

“Há algo de poderoso em saber nomear isto como luto. Ajuda-nos a sentir o que está em nós (...) e permite-nos que se mova através de nós. As emoções precisam de movimento. É importante que reconheçamos aquilo por que passamos (...) O seu trabalho é sentir a sua tristeza, e medo, e raiva (...) Combate-los não ajuda, porque o sentimento é produzido pelo seu corpo. Se deixarmos que os sentimentos aconteçam, eles  fá-lo-ão de forma ordeira, e isso empodera-nos. Deixamos de ser vítimas”.

 

Pedro Frias – Adaptado de “That Discomfort You’re Feeling is Grief”, de Scott Berinato,  Harvard Business Review, 23/03/2020