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Psicovid19

Saúde mental em tempos de pandemia

Psicovid19

Saúde mental em tempos de pandemia

Unidos contra o estigma associado ao Covid-19

26.03.20

Lamentavelmente, surgem notícias de episódios de rejeição e violência dirigidos a pessoas infetadas pelo SARS-CoV-2. Ambulâncias com pessoas infetadas apedrejadas e violentamente atacadas com engenhos explosivos . Ataques racistas e xenófobos dirigidos a comunidades de chineses ou outras populações asiáticas. São reações que surgem do medo da doença, da necessidade de atribuir culpa e de boatos e mitos disseminados, mas que têm que ser evitadas, já que o mero bom senso empático antecipa o sofrimento que podem causar e a evidência científica mostra claramente que dificultam a resposta às doenças transmissíveis.

Na doença mental, o estigma é fenómeno bem antigo, disseminado e estudado. A origem do termo “estigma” remonta à Grécia Antiga, onde significava uma queimadura ou cicatriz feita no corpo de maneira a denotar que o seu portador era um escravo, um criminoso ou um marginal, devendo ser evitado e excluído de locais públicos. O estigma social mantém-se hoje e é uma ameaça à identidade da pessoa, traduzido em atitudes de discriminação, censura, rejeição e marginalização de um indivíduo ou grupo de indivíduos com caraterísticas consideradas indesejáveis. Na doença mental, está bem estudado que o estigma tem, muitas vezes, efeitos mais nocivos do que a doença em si, pela autoestigmatização, pelo impacto na autoestima, pela retirada social e não procura de cuidados de saúde e pela dificultação da recuperação do indivíduo e da sua integração social.

O estigma social associado ao Covid-19 é assunto tão sério que motivou que fossem emitidas recomendações específicas sobre como o enfrentar:

  • As palavras importam. Ao falar sobre doença por coronavírus, certas palavras com significado negativo (por exemplo, caso suspeito, isolamento, guerra...) podem perpetuar estereótipos, fortalecer falsas associações entre a doença e outros fatores, criar medo generalizado ou desumanizar aqueles que têm a doença. Deve ser incentivado o uso de terminologia que separa a pessoa do vírus. Devemos referir “pessoas que têm”, “pessoas que estão a ser tratadas”, “pessoas que recuperaram”, “pessoas que morreram após contrair” Covid-19, não terminologia que dá a uma pessoa uma identidade definida pelo vírus (por exemplo, casos Covid-19, pessoas Covid-19, famílias Covid-19).
  • Divulgar os factos. Dar prioridade à recolha, consolidação e disseminação de informação rigorosa sobre as áreas geográficas afetadas, a vulnerabilidade individual e de grupo, as opções de tratamento e onde e como aceder aos serviços e informações de saúde. Enfatizar a efetividade das medidas de prevenção, de triagem, de teste e de tratamento precoces.
  • Amplificar vozes, histórias e imagens positivas de pessoas que tiveram o Covid-19 e que recuperaram ou que apoiaram um ente querido e estão dispostas a contar como foi. Evidentemente, respeitando a confidencialidade.
  • Envolver os influencers sociais, para estimular a reflexão sobre pessoas e profissionais de saúde que são estigmatizados e como os apoiar.
  • Retratar diferentes grupos étnicos. O vírus não tem como alvo grupos raciais ou étnicos específicos, pelo que a doença não deve ser vinculada a nenhuma etnia ou nacionalidade.
  • Promover um jornalismo ético. A comunicação social pode ser muito útil para disseminar informação rigorosa, usando linguagem simples. Deve mostrar cuidado e empatia por todos e não culpar indivíduos específicos por infetarem outros.

O combate ao estigma é feito pela partilha de factos, e só os factos, não o medo, vão parar a propagação do Covid-19.

Manuela Silva

Como assegurar a saúde mental dos profissionais de saúde?

26.03.20

As situações de catástrofe, independentemente da sua natureza, põem em causa a integridade física e emocional das pessoas. Pelas perdas humanas, materiais e alterações situacionais por demais desestruturantes, interferem significativamente com o equilíbrio das pessoas, famílias e sociedades.

Em tempos de crise como o que vivemos actualmente, os profissionais de saúde são expostos continuamente a situações extremas, sendo postos em causa o seu bem-estar ou sobrevivência. Os serviços de saúde vêem-se agora sobrecarregados e com respostas claramente insuficientes, daí resultando uma imensa pressão laboral sobre os profissionais e, não infrequententemente, a sensação de impotência face às necessidades reais de acção. A isto soma-se ainda o elevado risco de infecção a que estão sujeitos no trabalho – agravado pela gritante escassez de equipamentos de protecção individual - e o medo de contágio dos familiares (ou separação física dos últimos para anular este risco, situação igualmente geradora de stress).

Se os profissionais de saúde que estão agora na linha da frente do tratamento de doentes com COVID-19 (seja nos cuidados primários, seja em meio hospitalar) estão sujeitos a todos estes factores de stress, também aqueles que se encontram a trabalhar partir de casa poderão sofrer com ansiedade antecipatória, perante a possibilidade de serem chamados para substituir colegas infectados e, eventualmente, virem a exercer funções fora das suas áreas de diferenciação, na prestação de cuidados a doentes infectados com o SARS-CoV-2, para as quais se sentem, e poderão estar, claro está, menos bem preparados.

A exposição repetida ao stress poderá permitir o desenvolvimento de estratégias adequadas para enfrentar os desafios ou, por outro lado, potenciar um mal-estar contínuo, provocando efeitos cumulativos que acabam por enfraquecer os recursos, tornando os indivíduos sucessivamente mais vulneráveis e menos aptos para enfrentar estas situações. O papel do stress na saúde mental está já bem documentado, sabendo-se hoje que este representa o principal factor de risco ambiental para doença psiquiátrica. De facto, períodos contínuos de stress associam-se a maior risco de depressão e outras patologias psiquiátricas, sendo que a evidência científica sugere ainda uma possível associação entre quadros depressivos e um risco acrescido de infecção.

A sociedade espera que os profissionais de saúde, agindo como ‘super-homens’, honrem um juramento acima de qualquer prioridade. Assim, como se de seres invulneráveis e indiferentes à dor nos tratássemos, somos despidos de emoções, desconsiderando-se as nossas vulnerabilidades. Ora, todos sabemos que nós, profissionais de saúde - apesar de aprendermos, com o tempo, a gerir as emoções no contexto das nossas funções - não sentimos nem mais nem menos que qualquer outro ser humano. Assim sendo - e agora mais que nunca - não pode ser esquecido que os profissionais de saúde, para além de prestarem apoio aos doentes (vítimas primárias), têm de lidar com as suas próprias emoções e sentimentos.

Por tudo isto aqui exposto, torna-se fundamental o reforço do apoio psicossocial de todos os profissionais de saúde de uma forma precoce e preventiva. É importante que sejam fornecidas estratégias para que estes consigam não só lidar com o outro, mas também aceitar o impacto dos acontecimentos sobre si próprio e reconhecer as próprias emoções, de forma a minimizar a sensação de perda de controlo e permitir a gestão de potenciais sentimentos negativos.

Também os recursos sociais e organizacionais ganham aqui um papel de extrema importância. Tendo em conta o impacto negativo da imprevisibilidade e incontrolabilidade das situações traumáticas, torna-se imprescindível a garantia de que todas as possibilidades sejam previstas e os procedimentos bem definidos. Para minimizar o potencial efeito cumulativo, deve estipular-se a rotação das equipas, com adequado tempo de descanso, realizar treino das situações e adequar as estratégias inerentes à situação concreta. Isto resultará, idealmente, numa atenuação das reações emocionais peri-traumáticas, reduzindo assim o risco de desenvolvimento de psicopatologia.

 

Desta forma, existem algumas estratégias para a manutenção do bem-estar, que se recomendam, nesta altura, aos profissionais de saúde (de acordo com o CSTS):

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