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Psicovid19

Saúde mental em tempos de pandemia

Psicovid19

Saúde mental em tempos de pandemia

Dependência de substâncias em tempos de pandemia: um duplo problema

04.04.20

É reconhecida a existência de estigma - preconceito e atitudes negativas - face à doença mental. Contudo, entre os utentes de serviços de saúde mental, uma população em particular tende a sofrer de discriminação e dificuldades no uso pleno de cuidados de saúde: as pessoas com abuso ou dependência de substâncias psicoactivas.

É muito frequente que ao uso nocivo de álcool ou outras substâncias psicoactivas se associe a presença de doença mental. Fala-se em 'patologia dual' quando existe, em simultâneo, um diagnóstico psiquiátrico (p. ex. depressão) e um uso problemático (abuso ou dependência) de álcool ou outras substâncias, independentemente da relação de causalidade entre ambos.

A Associação Mundial de Patologia Dual, através da sua congénere portuguesa, a Associação Portuguesa de Patologia Dual, produziu recentemente um comunicado relativo aos cuidados com estes doentes. Salientam-se alguns tópicos importantes:
- devido à quarentena e dos rigorosos controlos policiais implementados para os fazer cumprir, é muito provável que haja falta de substâncias psicotrópicas no mercado ilegal;
- a dificuldade em adquirir as substâncias psicotrópicas pode induzir quadros de abstinência;
- a falta das substâncias psicoativas pode provocar a descompensação da patologia psiquiátrica, com a possibilidade de os doentes apresentarem alterações de comportamento;
- a coabitação corre o risco de vir a ser muito difícil para muitas famílias, que, para além de suportar o stress induzido pela quarentena, ainda terão de acolher os seus familiares e que atualmente vivem na rua;
- muitos doentes vivem em situação de marginalidade e poderá ser necessário colocá-los em quarentena, o que será, para muitos deles, difícil de suportar;
- é preciso recordar que, se a saúde mental é já habitualmente dotada de recursos precários, estes doentes, devido à sua especial complexidade clínica e seus custos elevados, podem sofrer duramente os efeitos duma pandemia que está em risco de esgotar os recursos sanitários.

Em Portugal, o SICAD - Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências, estrutura que tem por missão a abordagem preventiva e terapêutica de dependências, tem disponível uma linha de apoio - Linha VIDA SOS Droga.

Apoio, aconselhamento e informação.Serviço anónimo, confidencial e gratuito. Disponível todos os dias úteis (das 10h as

Nuno Madeira

Palavras para falar de esperança

02.04.20

Estamos todos muito preocupados e com medo da pandemia de Covid-19. Precisamos de implementar “primeiros socorros psicológicos” coletivos , ou seja, atitudes e mensagens que ajudem a lidar com as emoções e a enfrentar os desafios de forma saudável, ouvindo e percebendo as preocupações e proporcionando sentimentos de apoio e esperança. Isso faz-se disponibilizando, com calma, a informação que se conhece e falando abertamente da incerteza, por se tratar de um novo vírus sobre o qual todos estamos a aprender. Não se faz alarmando continuamente, infantilizando ou fazendo promessas ou garantias falsas.

Os portugueses, tal como tem acontecido noutros países europeus, têm colocado cartazes nas suas varandas, com desenhos de arco-íris e a mensagem “Vamos todos ficar bem”. Não penso que sejam as palavras certas para falar de esperança. Não, não vamos todos ficar bem. Já aconteceram muitas mortes e ainda vão acontecer muitas mortes, mesmo que cumpramos as recomendações de distância física e higiene. Já aconteceu muito sofrimento e vai acontecer muito sofrimento, nas casas de quem está doente, nos hospitais, no círculo daqueles que acompanham e perdem quem amam e que, nestes tempos tão estranhos, nem se podem consolar ou despedir. Ainda vamos nas primeiras semanas de confinamento em casa e já é percetível o impacto no bem-estar mental e na conflitualidade intrafamiliar, não antecipamos claramente qual será o resultado final. O impacto na economia já é enorme e vai ser brutal, com aumento da pobreza, do desemprego, da precariedade, desproporcionalmente sentido pelos grupos mais vulneráveis. Não, não vamos todos ficar bem, não nos sosseguemos repetindo essas palavras, procuremos antes coletivamente soluções para, lucidamente, minorar o possível desta situação de crise e das suas consequências.

Também não me parece o bom caminho glorificar pessoas ou atos específicos. Os profissionais de saúde não são heróis, estão na frente de combate ao vírus porque sim, porque foi o trabalho que escolheram fazer; têm que se proteger, têm que descansar, não podem ficar com a responsabilidade de salvar o mundo, precisam das melhores condições possíveis para exercer o seu trabalho e, depois da pandemia, que sejam reconhecidas as dificuldades com que já trabalhavam e que se agudizaram. Os idosos que cedem ventiladores para salvar a vida dos mais jovens não devem ser apresentados como heróis; ninguém deve ser pressionado a ceder a possibilidade de ter respiração assistida, passando implicitamente a mensagem de que quem não o faz é egoísta, essa deverá ser uma decisão clínica, assente em princípios éticos.

Também não se faz com exigências absurdas de exigir “uma data ao fundo do túnel”, por ser cientificamente impossível avançar com ela. Precisamos de ensaiar as palavras, atitudes e ações que permitam a tranquilidade possível, porque por agora só temos o presente, ajustando as expectativas e soluções à medida que formos tendo mais dados.

Sendo difícil, é fundamental passar uma mensagem positiva, assente nos valores da solidariedade que têm despontado um pouco por todo o lado, nas competências que temos, na confiança de que ninguém larga a mão de ninguém e nos avanços da ciência. No passado, lidámos com fomes, inundações, predadores e guerras tribais. Hoje, com a doença, a desaceleração da economia, o repentino isolamento e a incerteza. No futuro, que redefinamos prioridades e o que é essencial mudar para nos prepararmos melhor para pandemias do futuro. Que utilizemos o silêncio e este tempo suspenso para entender o que sentimos e o que para cada um é fundamental. E, quando recuperarmos a nossa liberdade e rotina e a possibilidade de estarmos mesmo uns com os outros, avancemos mais decididamente na direção da sociedade que queremos ser.

Estamos nisto juntos, juntos vamos ultrapassar a pandemia.

Manuela Silva

O luto global

01.04.20

O mundo mudou. De há umas semanas para cá operou-se, na vida de todos, uma mudança de dimensões ainda difíceis de compreender. Acompanhando esta mudança surgem, mais ou menos evidentemente, uma miríade de emoções e sentimentos que nos colocam desafios individuais permanentes, causando sofrimento, ansiedade e tristeza, impondo-se a sua análise e compreensão à luz do contexto atual

Numa entrevista ao Harvard Business Review, o Dr. David Kessler (um dos principais especialistas na temática do luto, a par com Elizabeth Kubler-Ross com quem colaborou) procura dar sentido a este conjunto de emoções e sentimentos, que identifica inquestionavelmente como “luto”.

Em primeiro lugar, o Dr. Kessler refere que neste momento todos sentimos diferentes “lutos”, que relaciona com a sensação de que o mundo está em mudança “apesar de sabermos que é temporário, não parece, e sabemos que as coisas serão diferentes” e acrescenta que este é um luto colectivo, ao qual se acrescenta uma vivência de “Luto Antecipatório”, que sentimos “acerca do que o futuro nos reserva quando estamos inseguros (...) Sentimo-lo quando alguem recebe um diagnóstico grave ou quando normalmente recordamos que um dia perderemos um ente querido (...) Sentimo-lo agora em relação ao futuro, a nossa mente primitiva sabe que algo de mau se passa, mas é invisível, o que quebra a nossa sensação de segurança, e esta perda nunca ocorreu desta forma a nível coletivo. “

O Dr. Kessler vê o luto antecipatório como uma forma de ansiedade, um projetar da mente no futuro, imaginando o pior e desta observação recomenda algumas formas de aplacar o sofrimento. Primeiro, diz-nos, “É importante compreender os estadios do luto”, lembrando-nos que estes não são lineares nem ocorrem necessariamente na ordem que nos apresenta, e exorta-nos à identificação destes estados durante o processo interno que todos vivemos:

Negação – “Este vírus não nos vai afetar”

Raiva – “Estou a ser obrigado a ficar em casa e a abdicar das minhas atividades”

Negociação –“ Ok, distanciamento social durante duas semanas vai fazer com que tudo fique bem certo?”

Depressão: “Não sei quando isto acabará”

Aceitação: “Isto está a acontecer, tenho que perceber como continuar.”

De acordo com o Dr. Kessler “é na aceitação que reside o poder, a capacidade de tomar o controlo da situação. Eu consigo lavar as minhas mãos. Eu consigo manter uma distância segura. Eu consigo aprender a trabalhar remotamente”.

Recomenda ainda, como forma de combater a projeção da mente no futuro (e no pior que este representa) “ Para nos acalmarmos, devemos voltar para o presente (...) nomear cinco objetos do local onde nos encontramos; Respirar; Notar que nada do antecipado aconteceu no momento presente”. Devemos ainda focar-nos no que está sob o nosso controlo e libertar-nos do que não conseguimos controlar “o que o vizinho faz está sob o controlo dele, eu consigo manter a distância social e lavar as mãos. Concentrem-se nisso”.

Finalmente, o Dr. Kessler releva a imprtância da compaixão “Cada pessoa terá diferentes níveis de medo, que se manifestam de formas distintas (...) Seja paciente” e está convencido de que seremos capazes de encontrar o Significado em tudo isto (O “Significado” é, para o autor, o sexto estadio do Luto, que aliás discutiu extensamente com Elisabeth Kubler-Ross) “Mesmo agora as pessoas percebem que se podem conectar através da tecnologia, que não estamos tão afastados assim, que há em tudo isto algo a aprender.”

“Há algo de poderoso em saber nomear isto como luto. Ajuda-nos a sentir o que está em nós (...) e permite-nos que se mova através de nós. As emoções precisam de movimento. É importante que reconheçamos aquilo por que passamos (...) O seu trabalho é sentir a sua tristeza, e medo, e raiva (...) Combate-los não ajuda, porque o sentimento é produzido pelo seu corpo. Se deixarmos que os sentimentos aconteçam, eles  fá-lo-ão de forma ordeira, e isso empodera-nos. Deixamos de ser vítimas”.

 

Pedro Frias – Adaptado de “That Discomfort You’re Feeling is Grief”, de Scott Berinato,  Harvard Business Review, 23/03/2020

Ser Médico Psiquiatra em Tempos de Pandemia

31.03.20

Correndo o risco de se tornar num monólogo maçador, decidi, ainda assim, partilhar este texto. Longe de constituir uma peça informativa, sendo na verdade apenas um conjunto de reflexões pessoais, acredito que possa ter alguma utilidade, permitindo ao público geral um breve vislumbre ...“do outro lado da secretária” – isto porque, hoje em dia, os divãs estão em extinção!

Numa altura em que os profissionais de saúde são (incorretamente!) aclamados como heróis, torna-se quase desonroso pertencer a esta classe e não estar na linha da frente - “Então como vai a luta? Tem sido muito cansativo o trabalho? É pá tenho mesmo orgulho em ter um amigo Médico (leia-se: Enfermeiro/ Técnico de Saúde/ Auxiliar) que dá o corpo às balas...”, “Tenho a certeza que vocês vão dar cabo do bicho” – são apenas alguns dos comentários tipo que, todos nós, profissionais de saúde, vamos ouvindo.

“Mas então na Psiquiatria estão a dar consultas, pelo telefone...? Não vão mesmo lá para a frente, com os escafandros... fazer testes, dar luta ao vírus?” – a réplica que, verbalizada ou não, se adivinha em muitos casos, quando se explica o esforço que os Serviços de Psiquiatria e Saúde Mental estão a fazer, para - vendo-se obrigados a limitar a intervenção presencial - manterem a resposta  de proximidade aos seus utentes. Alargando até a sua atividade, para dar resposta a todo um conjunto de “novos doentes”, que desenvolvem sintomatologia psicológica e psiquiátrica, reativa à crise de saúde pública que se vive.

Uma resposta concertada, a nível nacional, de intervenção psicológica e de saúde mental em catástrofe, está a progredir a passos largos (nalguns sítios a uma velocidade superior à de outros) para, de forma engenhosa e que certamente nos deixará a todos orgulhosos, dar resposta às necessidades da população, com os recursos que, com algum eufemismo, são inferiores ao desejável! Ainda assim, parece cada vez mais provável que, devido à falta de recursos humanos, em contexto pandémico, muitos Médicos - a especializarem-se há vários anos em Psiquiatria e Saúde Mental -  sejam chamados “para a linha da frente”, a exercer uma prática clínica de medicina generalista, na qual já não têm a destreza que certamente gostariam, para se sentirem perfeitamente confortáveis a exercer essa missão.

Surgem assim os dilemas... Numa mão, a vontade de ajudar, de participar na primeira linha da batalha, de atender a necessidades mais emergentes... Na outra, a perceção de que, onde somos mesmo bons é a tratar outros tipos de “dispneias” e “taquicardias” ... aquelas que não têm uma causa fisiológica evidente, por mais evidente que seja o sofrimento que provocam...

Por um lado, ter de ser contentor de sentimentos e emoções dos outros - que apesar de expectáveis e muitas vezes normativos, podem ser extremos e intensos, ao ponto de paralisarem os indivíduos. Por outro, tentar conter a nossa própria “humanidade” - que nos leva a sentir como sentem os outros, sem conseguirmos ser, os heróis que muitos esperam que sejamos!

 

Lídia Sousa

 

 

Covid-19 e crianças em casa

31.03.20

Todos enfrentamos momentos desafiantes de doença e possibilidade de doença que provocam situações inesperadas no dia-a-dia. As recomendações de permanecer no domicílio, o encerramento das escolas, problemas económicos decorrentes de inatividade ou desemprego obrigam as famílias a uma total reorganização. São múltiplas as dificuldades em conciliar a permanência em casa com crianças e arranjar formas de garantir cuidado e vigilância ou tentativas de trabalho remoto com crianças em casa.

As crianças também são afetadas pela quarentena, sentem as diferenças na rotina habitual, estão atentas às alterações nos adultos à sua volta, absorvem as suas preocupações, momentos de tensão e stress. É crucial, como figuras de referência, mantermo-nos calmos e tentar perceber ou procurar maneiras de ultrapassar as dificuldades que vão surgindo, adaptando uma nova realidade a cada dia.

Por isso, é importante respondermos às questões que as crianças colocam e adequarmos as respostas a cada idade e situação, focando no bem-estar e partilhando informações úteis e práticas. Devemos explicar o porquê na mudança de algumas rotinas de forma simples. É normal uma sensação de insegurança e dúvidas quando nem os próprios adultos/pais/cuidadores sabem o que esperar. É essencial ajudar a filtrar e interpretar a informação circulante e mudanças nas rotinas, de modo a minimizar a ansiedade e tranquilizar, transmitindo sensação de segurança e controlo.

Crianças abaixo 6 anos: não precisam de informações detalhadas e têm dificuldade em interpretar as notícias, pelo que as explicações devem ser simples e factuais. As crianças precisam de ser tranquilizadas em relação ao cuidado e saber que a família está segura e saudável.

Crianças mais velhas: é natural que já tenham informação acerca da doença e muitas dúvidas. Para evitar versões assustadoras, distorcidas ou falsas, conversem regularmente com eles, respondam às perguntas enquanto realizam as atividades do dia-a-dia, enquanto brincam, permitam que sejam eles a expor as dúvidas, que sejam eles a orientar a discussão, encorajem-nos a partilhar sentimentos e mantenham diálogo aberto, em vez de uma “grande conversa” com explicações excessivas e preocupações que não são deles.

Pode surgir o pedido para brincar ao “faz-de-conta” como médicos/enfermeiros ou temas de brincar relacionados com morte, vírus e doença, o que será normal e expectável; aproveitem a oportunidade para explicar o papel dos profissionais de saúde, a doença e a importância do cuidar. É uma forma de as crianças exteriorizarem e lidarem com os seus sentimentos de medo. 

Relativamente ao uso de máscaras: expliquem que às vezes usamos máscaras quando estamos doentes; quando deixamos de estar, não precisamos de usar mais. Não é um disfarce e conseguimos falar na mesma; não são “os maus” que usam, nem precisam de ter medo; apenas usam máscara porque estão doentes. Expliquem que todos podemos ficar doentes mas se a criança ficar doente os pais/cuidadores vão estar com ela e cuidar dela até ficar melhor, com ajuda dos médicos, se necessário.

Nos dias que correm, é imperativo manter as rotinas diárias o mais consistentes possível; restabelecer rotinas antigas ou criativamente construir novas rotinas, ajudando a implementar uma sensação de normalidade e segurança. Mostrar disponibilidade emocional para além de presença física. É importante passar tempo com as crianças, reassegurar, transmitir calma e segurança; limitar exposição ao fluxo de informação constante dos media acerca do Covid-19 e tentar distanciar-se quando em discussões/debates entre adultos acerca do tema. Lembrem-se que as crianças conseguem sentir a tensão e preocupações das pessoas que as acompanham. É um momento apropriado para praticar e treinar rotinas de higiene em casa.

Uma vez em casa, sem ir à escola: estabeleçam objetivos, horários de trabalho/estudo para todas as áreas lecionadas na escola e organizem tempo de lazer/brincar; mantendo um funcionamento “escolar” e não de “férias”. 

De seguida apresentamos algumas dicas/atividades que poderão ser realizadas:

 

 

Associativismo em Tempos de Pandemia

31.03.20
"They are casting their problems at society. And, you know, there's no such thing as society…” 

Margaret Thatcher, Revista “Women's Own”,1987

Arriscar-nos-íamos a dizer que, volvidas algumas semanas desde o início deste período de excepção nas nossas vidas, o momento que enfrentamos presta-se a, de uma penada, nos permitir desmentir cabalmente a Srª Thatcher.

Sem uma sociedade manifesta por uma rede colaborativa e comunitária, em que a realidade do outro é colocada a par da nossa, sem um movimento global de empatia, não estaríamos nunca em condições de enfrentar este desafio.

Dentro de todos os atores responsáveis por esta mobilização ímpar, gostaria hoje de destacar o papel dos movimentos associativos. Pelo seu surgimento súbito, colocando em causa os paradigmas de eficiência previamente vigentes, a pandemia de COVID-19 obrigou as estruturas centrais a uma mobilização sem precedentes, dirigida ao combate a esta doença e a tudo o que esta implica, reconhecendo por vezes gorada a sua capacidade em corresponder a todas as solicitações. No terreno a organização de todos em torno de objetivos comuns, materializada, entre outros projetos, em associações (mais ou menos antigas, mais ou menos estruturadas, mas sempre envolvidas e ativas) procura assegurar respostas rápidas, orientadas e ajustadas a múltiplas realidades, aprofundando algo que não pode deixar de ser repetido: não se vence uma pandemia sozinho.

A Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria, cuja acção pretendemos focar, remonta ao ano de 2005, quando um grupo de médicos internos em Psiquiatria decidiu unir-se em torno de uma causa comum, a defesa da formação em Psiquiatria no nosso país. Desde então, várias têm sido as actividades levadas a cabo pela nossa associação, desde eventos de uma enorme qualidade científica, participação social e defesa acérrima da qualidade formativa do internato em Psiquiatria, que têm contribuído para o seu reconhecimento actual na área da saúde mental e no papel representativo de mais de 300 médicos internos. A este crescimento foi essencial a construção de pontes com outros importantes interlocutores na área – Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, Ordem dos Médicos, Plano Nacional de Saúde Mental ou até, mais recentemente, da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, relevando o desejo de um trabalho colaborativo em Psiquiatria.

Esta atitude colaborativa permitiu-nos chegar aos dias de hoje com uma visão estratégica de como nos deveríamos colocar na resposta a este flagelo. Em primeiro lugar, procurámos garantir junto da Ordem dos Médicos e da Administração Central dos Serviços de Saúde, respostas às múltiplas questões que se colocavam numa altura de mudança abrupta do quotidiano dos estágios formativos. Assegurada a urgência de compreender a situação formativa dos internos de Psiquiatria, voltámo-nos para a participação na intervenção em saúde mental durante este período. Contactámos e fomos contactados por diversas estruturas, colaborámos com a Universidade do Minho para prestar apoio psicológico a profissionais de saúde (disponível aqui), com a Administração Regional de Saúde-LVT, Hospital Fernando da Fonseca, Direcção Geral de Saúde e Plano Nacional de Saúde Mental na divulgação de material informativo para profissionais de saúde e público em geral (disponível aqui); Aliámo-nos a designers que, voluntariamente, nos ajudaram no desenvolvimento de material de divulgação relativo a formas de combater o stress durante a pandemia (pode encontra-lo aqui); Juntámo-nos aos restantes autores deste blog para fazer chegar a mais gente informação sólida e útil; Mantemos contacto com os principais responsáveis na área da saúde mental para ajudar os internos de Psiquiatria e os Serviços Locais de Saúde Mental da melhor forma que conseguimos. Mais do que isto, fomos solicitados por inúmeras entidades e colegas para podermos estar presentes em cada momento de um processo que para todos é confuso e desafiante, e nada nos poderia deixar mais orgulhosos de todos quanto connosco têm participado desta luta. Importa ressalvar também que, numa altura de multiplicidade de iniciativas e actores, promovemos sempre a acção conjunta e estruturada, evitando duplicação de recursos e de mensagens, procurando concertar esforços na importante mensagem a passar, na promoção da saúde mental de todos.

Como a nossa Associação existem inúmeras, focadas nas suas respetivas áreas de intervenção mas permanentemente ligadas entre si, partilhando dificuldades, ideias, soluções, problemas, no fundo, partilhando o peso deste desafio que carregaremos todos até ao seu desenlace.

E é esta uma das razões pelas quais guardamos uma boa dose de otimismo nestes dias. A cooperação em torno de um objetivo comum, que tece uma fina malha em permanente adaptação a novas realidades.

Muitos de nós, médicos, serão chamados para a linha da frente por estes dias. Vai ser necessário muito suor, um pouco de sangue e algumas lágrimas, dizem.

Neste campo de batalha, valha-nos o planeamento estratégico e a cooperação.

Valham-nos os objectivos comuns e a comunicação eficaz.

Valha-nos o associativismo.

 

Pedro Frias e Diogo Almeida – Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria

 

Quem guarda os guardiões?

29.03.20

Numa altura em que crescem as manifestações de solidariedade e gratidão para com os profissionais de saúde, particularmente aqueles que se encontram na linha da frente, nunca será demais refletir sobre as consequências para a sua saúde desta batalha que travam por todos nós.

São fáceis de perceber os riscos físicos a que se expõem, nomeadamente num contexto de falta de adequado material de proteção, que aumenta o risco de infeção por SARS-CoV-2. A ilustrar isto, há quase duas semanas a Ordem dos Médicos já informava que cerca de 20% dos casos de COVID 19 eram Médicos... Não houve palmas à janela que lhes valessem!

Por todo o lado, chovem relatos de profissionais de saúde de várias classes (Médicos, Enfermeiros, Técnicos Superiores de Saúde, Assistentes Operacionais...) que não têm ao seu dispor os equipamentos de proteção individual necessários para garantir a sua segurança, tentando a todo o custo obtê-los fora das instituições e, muitas vezes, sem qualquer apoio financeiro.

Mas, como este é um blogue de saúde mental, seria também de esperar uma chamada de atenção para as consequências que esta pandemia terá na sua saúde mental.

O cansaço, decorrente de horários de trabalho alargados (para compensar o aumento da afluência aos serviços e a falta dos profissionais que estão já em casa, doentes ou em isolamento profilático), o afastamento das famílias (que fazem voluntariamente, tal é o medo de contagiarem os conviventes) o constante medo de contaminação e o confronto diário com a fragilidade da vida humana e , num futuro próximo, a necessidade de tomarem decisões de vida ou morte - sim, porque se em Itália e Espanha já se pratica Medicina de catástrofe, escolhendo-se quem vive e quem morre, por cá não estaremos já muito longe desse cenário, infelizmente - levarão certamente a estados de exaustão emocional e sofrimento psicológico sem precedentes.

Neste sentido, cabe aos serviços de Psicologia e de Psiquiatria e Saúde Mental, um papel primordial no apoio aos profissionais de Saúde. Vários Centros Hospitalares anunciaram já iniciativas que visam prestar este apoio aos seus profissionais. No entanto, por vezes é mais fácil falar de sentimentos e expormos as nossas fragilidades com pessoas com quem não contactamos diretamente e cujos rostos não vemos nos corredores diariamente.

Assim, fica aqui novamente divulgada uma iniciativa que conta já com a colaboração de cerca de 200 Psiquiatras de todo o país e que visa utilizar a telemedicina para chegar a todos os profissionais de saúde, que tenham necessidade de uma consulta de Psiquiatria. Todos os interessados podem inscrever-se e obter mais informação em www.p5.pt/apoio. Ser-lhes-á agenda uma consulta de telemedicina, com um Médico Psiquiatra voluntário, em horário que seja conveniente para ambos.

De igual modo, os Psiquiatras voluntários poderão registar o seu interesse em www.p5.pt/voluntario. Para mais informações pode também ser usado o contacto de email cuidar@p5.pt.

 

Se juntos somos mais fortes, vamos também cuidar de quem cuida! Porque nesta luta NÃO HÁ HEROIS!

 

Lídia Sousa

Off the beaten track

27.03.20

Tropecei neste artigo e identifiquei-me com aquilo, assim à bruta. Eu, que sou dado a melancolias, já começo a dar por mim com saudades do tempo pré-apocalipse. Nessa altura, naturalmente, também me queixava, e tinha saudades de outro tempo pré-qualquer-coisa-do-momento. E assim, andando para trás, lembrei-me do Steve, um gajo simpático de Chicago que conheci na Islândia há uns vinte anos. Há vinte? Porra, há vinte.

Não era nenhum nabo, o Steve. Era um WASP informado que vivia no lado certo da cidade, sabia que existia um mundo complexo para lá do alpendre da casa da mãe (mum is like, hum, an interior designer, you know?) e tinha sensibilidade social e ambiental. O cenário da ilha - a Björk só poderia ser islandesa - e a idade convidavam a reflexões pseudo-filosóficas mais ou menos regadas com a cerveja local. Sobre a natureza e a vida moderna e paleio do género nesse longínquo ano, tão analógico, de 1999 tirávamos conclusões inequívocas e finais: isto está tudo uma porra. Fucked. Ele anuía perante as minhas considerações existenciais e exortações à mudança, mas respondia, invariavelmente e com um encolher de ombros: but then who cares, you know?

Entretanto, todos estes anos passaram. E ficámos ainda mais estúpidos. Dumb. No início era a cena da globalização. Globaliza não globaliza antiglobaliza. As techs, as dot-com. Os telefones, as viagens, os gadgets. A net e o hi5 e o não-sei-quê que olha-até-já-fechou. O faicebuque. As cenas que agora são muita baratas. A China e coiso. O tempo acelerado. E certas coisas passaram, devagarinho e de pantufas, a ser normais. A comida vem dentro de uma caixa. Agora até já dá para aquecer a comida dentro da caixa. Who cares, you know? Os fins de semana passaram a ser dias como os outros. Tudo está aberto às horas todas. Há guito. Que fixe, man.

Depois veio a crise. Já não há dinheiro, mas há budgets e montes de cenas “optimizadas”. Os gajos da finança lixaram isto, mas também têm as soluções. E os caixões. Tudo é obsoleto. Deslocaliza-se, vai para o online, desmaterializa-se. Automático. Smart. De um lado o tech e a cena virtual, do outro lado a malta a penar sem dinheiro, sem vida e sem email. Trash. Não reconvertível. As tragédias afinal são liabilities, geríveis com comunicação e networking. O Exxon Valdez era um petroleiro que em 1989 derramou crude e provocou um gigantesco desastre ambiental na costa do Alasca; A Deepwater Horizon (onde estava ao certo?...) em 2010 foi um escândalo corporate e teve que pagar imenso dinheiro. Um prejuízo do catano.

E nós, os dumb, ficámos dumber. Inicialmente até parecia que não. A malta passou a viajar (ainda) mais, a preocupar-se com o corpo, com a comida, com os animais. O ambiente. O bem-estar, a cena emocional e tal. Em vez de empresários havia empreendedores, tipos novos e fofos vestidos de t-shirt e jeans, a criar apps e cenas green que mudariam o mundo as we know it. Mas depois, dumber. Lembro-me de ver uma mulher a fazer um escarcéu porque numa viagem de barco percebeu que o tipo que nos levava de passeio aproveitava para pescar à linha. Please. Oh my God. Stop.